terça-feira, 14 de agosto de 2012

A concepção Kantiana de ética


Antes de começarmos a falar da concepção kantiana de ética, é importante fazer algumas considerações. Quando se fala de Kant, torna-se impossível desassociá-lo da razão, isso se deve ao fato dele ter colocado a própria razão ao crivo da crítica e checou a afirmar que não importa o que o homem pensa, devem comunicar as suas ideias aos demais, com a finalidade de colocá-las à prova e expô-las à critica, a fim de que ela seja aperfeiçoada. E com pensamentos como este, Kant busca por uma razão universal. Tanto que sua primeira grande obra chama-se Crítica da Razão Pura. Aqui Kant reserva um espaço para o que ele nos apresenta como os aspectos essenciais da vida humana, demonstrando que a razão não deveria ser tão restrita, e a partir destes aspectos, a razão deveria sim intervir. Tais aspectos foram chamados por Kant de interesses essenciais da razão. Eles se resumem em três perguntas:
O que posso conhecer?
O que devo fazer?
O que posso esperar?
E depois da razão responder essas três perguntas surgiria um resumo a uma última e 4ª questão: O que é o homem?, como podemos ver em um fragmento de seu livro Crítica da Razão Pura:
Todo interesse da minha razão (tanto o especulativo como o prático) concentra-se nas três perguntas seguintes 1. Que posso saber? 2. Que devo fazer? 3. Que posso esperar? A primeira pergunta é puramente especulativa. Esgotamos (assim espero) todas as respostas possíveis e encontramos, finalmente, aquela com a qual a razão tem  de se satisfazer quando não visa ao prático. (...) A segunda pergunta é puramente prática apesar de poder, como tal, pertencer a razão pura, nem por isso é transcendental, e sim moral. (...) A terceira pergunta – a –saber, o que me é permitido esperar se fizer o que devo? – é, ao mesmo tempo, prática e teórica, de modo que a prática nos leva, somente como fio condutor, a dar uma resposta à questão teórica, e se ela se eleva à questão especulativa. De fato, todo esperar refere-se à felicidade e é, em relação ao prático e à lei moral, o mesmo que o saber e a lei da natureza são em relação ao conhecimento teórico das coisas (KANT, apud. ABRÃO, 2008. p. 145).
Quando uma pessoa consegue responder as três perguntas através do uso da razão, segundo Kant, ela chegaria a conhecer o seu dever, e, ao cumpri-lo, esperar a felicidade resultante de sua ações. Isto é, assim que conhecemos o nosso dever e agimos com base nesse nosso conhecimento, temos o direito de esperar a felicidade, uma vez que ao fazer estas perguntas, estamos perguntando o que fazer com a própria vida. Para Kant, esta razão que as respondem é a sabedoria.
Referente ao conhecimento teórico – o que posso saber? – Kant, em sua filosofia, procura resolver o impasse entre racionalismo e empirismo, onde o primeiro defende um conhecimento que seja a priori do fato e o segundo defende um conhecimento que seja a posteriori do fato, ao desenvolver o a priorismo, que procura juntar as duas concepções, na qual o homem só chega ao conhecimento através da experiência e da comprovação, mas ele só será efetivamente adquirido devido às estruturas a priori. Referente a essas duas faculdades, a sensibilidade que recebe os dados da experiência e o intelecto que realiza a análise e os julgamentos, Kant nos confidencia:
Nenhuma das duas faculdades podem se opor à outra. Sem a sensibilidade nenhum objeto nos seria dado, sem o intelecto nenhum objeto seria pensado. Sem conteúdos os pensamentos são vazios; sem conceito as intuições são cegas (KANT, apud in: SEMERARO, 2011. p.63).
Tornando assim possível o conhecimento científico, isto é a ciência, através das novidades da experiência e da universalidade das categorias do intelecto.
Desta forma o conhecimento de Deus, da alma e do mundo se torna impossível de ser realizado pelo homem, uma vez que os mesmos não podem ser evidenciados pela experiência. Mas essas ideias não deixam de acompanhar o homem e elas levam o homem aspirá-las, as quais ele poderia ter acesso com outros meios. Segundo Semeraro:
a busca da liberdade e da vida moral pela razão prática. Além de sujeito cognoscente, de fato o homem é um ser de vontade e de ação. Opera não apenas no campo da ciência, mas vivencia uma razão prática que cria decisões e valores da conduta humana. Além da intelectiva, a razão é eminentemente prática, faz sentir sua voz como um imperativo nas escolhas do dia a dia. É neste âmbito que a razão pode encontrar respostas a um sabre superior que a ciência não oferece (SEMERARO, 2011. p.64).
Em busca da resposta de O que posso fazer?, Kant apresenta a razão prática no livro Crítica da Razão Prática o qual ele vai refletir sobre a liberdade, a vontade e as formas das ações morais, tentando resolver aspectos de seus pensamentos referentes ao destino humano, a busca do infinito e a abertura para o divino, que apresentam como sentimentos poderosos que imprimem sua marca no comportamento. E ainda dentro da razão moral, Kant reserva a obra Fundamentos da Metafisica de Costumes.
Partindo então para uma ação moral, Kant distingue o ser humano de um animal que ao seguir sua natureza, não tem uma capacidade de escolha, portanto, não possui uma vida moral. Mas o homem, para que possa ter uma vida moral, é preciso que se tenha a liberdade, pois ela é essencial para que o homem tenha uma vida moral.
Toda ação por coerção elimina o valor da atividade humana /.../ a liberdade do agir moral torna o homem independente em relação ao mundo /.../ Na prática para o homem, mais importante que o conhecimento é a liberdade e a capacidade de realizar atos de vontade e de valor universal (SEMERARO, 2011. p.65).
Como nos presenteia Kant, a liberdade é a propriedade de agir independentemente de qualquer causa externa dominante (apud. SEMERARO, 2011. p.65). Assim torna o homem um ser de vontade, sendo, portanto, um legislador de um sujeito ativo, criando ações livres que o permite constituir-se no absoluto. Assim, Kant consegue passar para sua filosofia características iluministas revelando elementos de um romantismo que caminha para Europa.
Duas coisas enchem o coração de admiração e veneração: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim [...]. O primeiro espetáculo de uma inumerável multidão de mundos, aniquila por assim dizer, a minha importância, por ser eu uma criatura animal que deve voltar a matéria de que é formado o planeta (Um simples ponto no universo), depois de (não se saber como) ter sido dotada de uma força vital durante curto espaço de tempo. O segundo espetáculo, ao contrário, eleva infinitamente o valor de minha personalidade, como o de uma inteligência na qual a lei moral me manifesta uma vida independente da animalidade e até mesmo de todo o mundo sensível (KANT, apud. SEMERARO, 2011. p.65).
Kant gostava de afirmar que a grandeza do ser humano estava na – inteligência – razão presente em todos indivíduos, proposta encarada pela revolução francesa por instaurar um mundo governado pela razão, e que suas principais características presentes no seu ideário, liberdade, igualdade fraternidade – princípios universais – de certa forma ecoam na proposta moral e na filosofia de Kant, combatendo assim, como vimos, a dependência externa e as inclinações egoístas do homem, sendo a razão universal e vinculando os princípios ao comportamento, o homem deixa de ser um meio e passa a ser um fim. Age de modo tal a tratar a humanidade, na tua pessoa como na pessoa de qualquer um, sempre como um fim, nunca como um meio (KANT, apud. SEMERARO, 2011. p.66).
Tornado os atos assim universais, Kant não coloca a ética como um resultado imediato, e ou, de interesse pessoal, mas um dever que é ditado pelo imperativo da razão. Aja sempre de tal maneira que possa erigir a máxima de tua ação em lei universal (KANT, apud. SEMERARO, 2011. p.66), tornado a ação moral objetiva, racional e universal. Quando enxergamos a liberdade humana que possibilita o homem agir moralmente, partindo desses princípios, constatamos que ela é arbítrio (determina a vontade), através de um exercício da racionalidade, sintonizada com as luzes da razão. Sendo assim, a razão, e comum a todos, a moral deriva do interior de nós mesmos, portanto é livre e autônoma, não sendo imposta de fora, abrangendo assim a universalidade.
Kant também apresenta que a vontade do homem e a razão nem sempre estão de comum acordo, para ele, o homem tem que lutar consigo mesmo, derrotando suas inclinações “perversas” e deve fazer prevalecer sempre os imperativos da razão. Kant nos alerta: Todos os imperativos se expressam com a palavra dever e indicam com isso a relação entre uma lei objetiva na razão e uma vontade que, por sua constituição subjetiva, não é necessariamente determinada por essa lei (KANT, apud. SEMERARO, 2011. p.67). Se o homem seguir os imperativos de razão ele não corre o risco de se limitar ao prazer, ao sucesso, a felicidade passageira ou de confundir interesses particulares com o bem comum.
O imperativo é importante por ser uma regra prática a ser seguida quando a razão não consegue dominar inteiramente à vontade, tornando assim uma referência a ser seguida quando o homem se encontra incapaz de tomar decisões racionais. Os imperativos são divididos em dois grupos por Kant, são eles: hipotéticos (ou condicionais) e categóricos (ou absolutos). No primeiro caso os fins pretendidos condicionam os mandamentos da razão e a ação que daí resulta. No segundo caso, não há condicionamento nenhum aos mandamentos da razão, a ação que resulta desses mandamentos é um bem em si. A ação é realizada porque ela é boa e não para atingir determinado fim.
Como podemos ver em Kant, devemos agir em busca de um bom que seja absoluto, isto é, sem restrições alguma, em todas as circunstâncias e em todos os momentos seja qual forem os resultados ou as consequências, esse bom proposto pelo Kant, só pode ser a boa vontade, como podemos ver:
Nem no mundo nem também, em geral, fora do mundo é possível conceber alguma coisa que possa considerar-se boa sem restrições, a não ser unicamente uma boa vontade /.../ A boa vontade, não é boa pelo que possa fazer ou realizar, não é boa por sua aptidão a alcançar um fim que nos propuséramos; é boa pelo querer, isto é, é boa em si mesma. Considerada por si só, é, sem comparação, muitíssimo mais valiosa do que tudo o que poderíamos obter por meio dela (VÁZQUEZ,  1978. p. 143).
Sendo essa boa vontade, não a vontade do homem, essa boa vontade é determinada exclusivamente pela razão.

Referências bibliográficas:

ABRÃO. B. S. Enciclopédia do estudante: história da filosofia: da antiguidade aos pensadores do século XXI. São Paulo: ed. Moderna, 2008.
ABRÃO, B. S. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2004.
SAMERARO, G. Saber Fazer Filosofia – O pensamento Moderno. Vol. 2. Aparecida: Ideias e Letras, 2011.
VÁZQUEZ, A. S. Ética. Rio de Janei

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